quinta-feira, junho 26, 2008

VIDA MARVADA

Ô vida marvada
Num dianta fazê nada
Pru que sisforçá
Si num vale a pena trabaiá
Ucê num sabe
Cumé bom vivê
Numa casinha branca de sapê
Uma muié a mi fazê carinho
Uma galinha
Dois ou treis pintinho

De minhã cedo
Eu óio pra rocinha
Pra vê si as veis
Nasceu quarqué coisinha
Mais qua o que
Não nasceu nada não
Prantando nasce
Mais nun pranto não!

O sór ta quente
A gente arranja a rede
Tem a viola presa na parede
A gente pita
Cospe e passa u pé
E deixa a vida
Pra quão Deus quizé!

Cancioneiro Popular

segunda-feira, junho 23, 2008

CIDADÃO SEM NOME

Ninguém notava a sua existência. Nem ele mesmo. Mas todos lhe conheciam. Constantemente estava pelas ruas a vagar, sem saber aonde ir. Conversava com muita gente e sempre cantarolava antigos sambinhas pela avenida. Na maioria das vezes, sob o efeito do rabo de galo. Filosofava seus monólogos intermináveis com o jornal embaixo do braço. Mas ninguém sabia que era analfabeto, mesmo parecendo que suas idéias viriam a mudar o mundo. O jornal na verdade era sua cama. As palavras o esquentavam na noite fria e deserta da cidade. Se soubesse ler, talvez aquele pedaço sujo de jornal lhe trouxesse conforto. Mas creio que não. Acende um cigarro. A única contribuição da sociedade em sua vida, além de uns trocados para o pão e o pingado. Traga até o fundo. O cigarro deixará seus dentes mais amarelados. E daí? Sente o calor da fumaça em seus pulmões debilitados pelo vicio das drogas. O único calor que lhe ofereceram. Vive de esmolas, catando latinhas, garrafas e papelão. Às vezes, come o que encontra no meio do lixo. Exibe roupas rasgadas, chinelo de dedo, o cabelo seboso e a barba crescida. E nos oferece um sorriso. O sorriso que várias vezes não tivemos para dar para nossas mulheres, patrões, o caixa do supermercado. Não tivemos porque às vezes estamos sem paciência. Porque nos preocupamos com o futuro. Ele não. Seu presente já é muito custoso para se pensar no dia de amanhã. Aliás, seus dias são muito monótonos. As mesmas ruas, avenidas. As mesmas pessoas. A preocupação é a subsistência. Muitos lhe estendem a mão. Mas é pouco o que oferecem. Moedas contaminadas de preconceito, nojo e aversão. Ninguém parece se importar. Mas ele não tem mãe para cuidar quando está bêbado e cheirando mal. Afinal, mendigo não tem mãe. Ninguém quer saber de suas aflições, desejos. Mendigo não tem pátria. Não tem nome. Não tem vida. Sofre, mas não faz diferença. Pois para quem vive à margem da pobreza, a morte é só uma conseqüência. Sem dor nem reza. Não tem parente para chorar no velório. Não tem nome para constar no atestado de óbito. Um problema a menos para nosso governo corrupto resolver.

quarta-feira, junho 18, 2008

DOIDERA PT. I

Dar conselhos é como resgatar nosso passado da lata do lixo, lavá-lo, retirar as partes podres, reciclá-lo e vendê-lo por um preço maior do que vale. Quanto mais velhos somos, mais valiosos os nossos conselhos. Os velhos sabem das coisas. Parecem sempre estarem certos quando dizem algo. Os imaturos não. Dizem que os preços vão subir. Que não agüentam mais as desilusões. Que Deus olha por nós. Que os políticos são corruptos. Que vamos envelhecer e morrer felizes depois de uma vida leve e calma. Quando envelhecermos, iremos nos atentar de que a vida não é bem assim. Veremos que os preços sempre foram acessíveis. Que as desilusões nos fizeram crescer e sermos o que somos. Que ninguém olha por nós, a não ser nós mesmos. Que os políticos são realmente corruptos como pensávamos. Que a vida é turbulenta, mas é do jeito que a gente sempre sonhou, só que com uns dias a mais de tristeza. Que a felicidade é meramente opcional. Que as crianças antigamente respeitavam os mais velhos. Respeitavam, pois a cada geração que passa, o respeito diminui. Uma pena, pois os mais velhos são mais vividos. Eles se esquecem das derrotas, dos fracassos, das demissões e dos insultos. Só se lembram dos elogios, das conquistas, dos troféus. Deviríamos ser todos assim. Não é fácil, mas deveríamos. Nada deveria nos abalar, somente nos dar forças para subir cada vez mais alto. Mas nos lembramos todos os dias de nossas angústias. Alguns mais, outros menos. O certo é que os maiores problemas de nossas vidas são aqueles que nem ao menos percebemos. Ou não queremos, e passam despercebidos. Ou não. Como aqueles que nos tomam numa segunda-feira chuvosa totalmente monótona, e tentamos esquecer tomando uma xícara de café. Olhamos o fundo da xícara. Giramos o restinho do café. Assopramos. Tentamos enxergar alguma imagem no fundo da xícara vazia. Enchemos novamente. E quando percebemos, o dia já passou, e o pior também. Mas o café não nos acordou. Estes são os piores dias de nossas vidas. Mas passamos por eles sem ninguém nos ajudar, nem nos auto-sacrificar. Por isso, não perca tempo na frente do espelho. Só percebemos a nossa beleza física quando a mesma já tiver desaparecido. O mesmo ocorre com nossa alma, se é que ela existe. Tem gente que se parece feia, mas o coração nos diz é que é bonita. Como explicar este fato? Não sei. Não conseguiram até hoje. Se você não tem nada para fazer, é um desempregado, ou um folgado mor, tente. Mas não se sinta desconfortável por não saber o que fazer da sua vida. As pessoas mais interessantes que conheci sempre foram assim. Descompromissadas, inteligentes, ambiciosas, mas sem arrogância ou mesquinharia. Pois se orgulhar, ou se criticar é perda de tempo. Tem dias que ganhamos, outros que perdemos. Os dados estão rolando. O jogo da vida já começou. Guarde seus conselhos, porque estou no páreo.

domingo, junho 15, 2008

POF e TALICO - MALUCOS BELEZA

Essa família só tem músicos mesmo...

quinta-feira, junho 05, 2008

O GRITO


Gritar é uma das maiores e mais abrangentes formas de expressão dos seres humanos. Gritamos quando nosso time ganha o campeonato. Gritamos numa discussão mais calorosa, quando a razão se esvai e dá espaço para a ignorância. Gritamos quando nascemos. Acredite, aquele choro esgoelado é o nosso primeiro grito na vida! Gritamos com nossos pais por qualquer besteira. Gritamos quando o silêncio incomoda. Gritamos com a velhinha que faz barbeiragem no transito caótico na hora do rush. Gritamos para assustar de sacanagem algum amigo e dar muita risada. Gritamos quando nos formamos, quando ganhamos um prêmio ou conseguimos um emprego novo ou uma promoção. Gritamos para atrapalhar o casal jovem de namorados se bolinando numa rua escura em meio à madrugada. Gritamos no “Diretas Já” e pelo impeachment do Collor. Gritamos de raiva após nos calarmos diante de quem merecia um belo soco na cara. Gritamos de tesão! Gritamos de frisson pelos Beatles ou pela Madonna (sério?). Gritamos quando ninguém parece nos ouvir, nem mesmo Deus. Gritamos para fazer birra e mamãe nos levar no circo. Gritamos por rebeldia, independência. Gritamos na montanha-russa e no trem-fantasma. Gritamos, mesmo que sem causa, na greve politizada da faculdade. Enfim, gritamos de alegria, tristeza, dor, raiva, pavor, inconformismo, necessidade, implicância, exibicionismo... Gritamos com a boca seca ou mesmo cheia de saliva, até espumar e cuspirmos todo sentimento. Gritamos porque temos voz ativa! Gritamos com as mãos socando o céu e o peito aberto, enfurecendo o grito até os olhos esbugalharem e o sangue ferver. Bufamos, esbravejamos, fazemos barulho. Somos puro instinto. Somente um beijo nos cala.