
Sentiu uma forte dor no peito. Aguda, sufocante. Não era a primeira, nem a segunda vez. Na verdade aquilo o incomodava à alguns dias. A guerra o atormentava. Sua família dizia que ele não tinha condições físicas nem psicológicas para enfrentar momentos como aqueles. No fundo, sabiam que ele não iria voltar. Mas guerra é guerra, e ele foi recrutado para defender a bandeira de sua nação. E após anos e várias vezes entre a vida e a morte, resolveu finalmente se tratar. Percebendo que estava entre a vida e a morte, renunciou e encostou seu fuzil pela ultima vez. Rapidamente foi internado no ambulatório de sua frente de batalha. Deram-lhe remédios e sedativos. Morfina. Muita morfina. E em um estalo de lucidez, em meio aqueles vários dias a esmo, perguntou ao médico: - Doutor, vou morrer? Não houve tempo nem de ouvir a resposta. Caiu novamente no mundo do subconsciente. Dizem que, para muitos, os últimos segundos da vida duram uma eternidade. Toda nossa vida é lembrada como se fosse um flashback. Dos piores aos melhores momentos. Momentos felizes, vergonhosos, gloriosos, enfim, momentos marcantes, inesquecíveis. Para este soldado ferido em combate não havia de ser diferente. Pensou em sua família, escola, amigos e na guerra. Refletiu sobre a merda de vida que viveu. Sobre a merda de guerra que serviu. Nas vidas que tirou. E chegou à conclusão que a melhor coisa que lhe poderia acontecer era realmente ir para o céu. Mal sabia ele que pessoas de sua estirpe não tinham lugar no céu. Mal sabia ele que o céu não existe. E em seu leito de morte, chorou por tudo que fez. Entendeu porque mesmo sedado sentiu uma forte dor no peito: o arrependimento. “Faria tudo diferente!”, pensou. Mas já era tarde. Sua vida já havia passado, e seu fim estava próximo. Realmente, estes foram os segundos mais longos de sua vida. E os mais conturbados.



